A Ilusão da Luneta: Quando o essencial se perde no instrumental
Em um conto tocante, o pedagogo Ruben Alves nos convida a refletir sobre a tendência humana de se fascinar pelo instrumental em detrimento do essencial. A história de um homem apaixonado pelas estrelas, que inventa a luneta para observá-las, mas acaba se perdendo na análise minuciosa do próprio instrumento, é um espelho para nossas vidas. Quantas vezes nos perdemos em aparências, em meios, e esquecemos do propósito maior?
A jornada do povo de Israel pelo deserto, narrada em Êxodo 17, nos confronta com uma pergunta fundamental: “Está o Senhor no nosso meio ou não?”. Mesmo após terem sido providos com maná e carne, a murmuração e o questionamento surgiram. Essa atitude nos lembra que, muitas vezes, trocamos a contemplação de Deus – a “estrela” – pela “luneta” das nossas próprias dificuldades e imediatismos.
A peregrinação como essência da caminhada com Deus
A história do povo de Deus é intrinsecamente uma história de peregrinação, de caminhada constante, e não de estagnação ou conforto. Ao longo do deserto, o povo aprendeu a conhecer o Senhor em meio ao cansaço e à poeira, descobrindo que o ritmo da vida é, em última instância, guiado por Deus. Essa lição sobre submeter nossos planos à vontade divina é vital, especialmente hoje, onde somos constantemente impulsionados pela produtividade.
Vivemos em uma “sociedade do cansaço”, onde o descanso e o ócio são vistos como inimigos da produtividade. Contudo, aprendemos com o povo de Israel e com pensadores contemporâneos que o descanso é um momento sagrado de aprendizado e contemplação. É na parada, no silêncio, que podemos nos reconectar com o essencial e evitar que a visão da vida se torne distorcida pelas “lunetas” do nosso cotidiano.
Deus muitas vezes nos conduz a “desertos” como Refidim, onde a água da vida parece escassa. Essa privação não é um sinal de abandono, mas um convite para que nosso olhar seja redirecionado para o Deus provedor. Assim como Jó, ao ser levado ao deserto, pôde declarar “agora eu conheço o Deus verdadeiro que faz jorrar fontes de águas vivas”, nós também podemos encontrar em Deus a verdadeira saciedade para nossa sede interior.
A reclamação constante, mesmo em meio a provisões básicas, revela uma profunda falta de admiração pela glória de Deus. Seja no adultério, na glutonaria, nas dívidas ou no temor dos homens, a raiz do problema reside em deixar de admirar o Criador em favor de substitutos mundanos. A admiração pela glória de Deus é o que nos confere identidade, propósito e nos livra da fábrica de ídolos que o nosso coração pode se tornar.
Diante dos ataques dos amalequitas, Moisés ergueu suas mãos, e o povo venceu. Quando suas mãos caíam, o povo perdia. Arão e Ur ofereceram suporte, ensinando-nos sobre a importância de sustentar a liderança e uns aos outros. Esse episódio culmina na proclamação “Jeová Nissi” – Deus é a minha bandeira –, lembrando-nos que a vitória, a provisão e o livramento vêm unicamente de Deus. A verdadeira batalha é interna: direcionar nosso olhar para o Senhor, a “estrela” que nos guia, e não para as “lunetas” que nos desviam.
Artigo baseado no sermão ministrada pelo Pb. Raphael Stephan, assista ao video original https://www.youtube.com/watch?v=vN32X3j0G8w
