Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, para resgatar os que estavam sob a lei, a fim de que recebêssemos a adoção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho ao nosso coração, e esse Espírito clama: “Aba, Pai!” Assim, você já não é mais escravo, porém filho; e, sendo filho, também é herdeiro por Deus.
Gálatas 4:4-7
A experiência religiosa, especialmente a cristã, muitas vezes se depara com a distorção de vivermos diante de Deus como escravos, quando fomos chamados para sermos Seus filhos. Essa inclinação natural a buscar segurança no controle é um pecado humano que nos faz querer controlar até mesmo nossa relação com o Divino. A carta de Paulo aos Gálatas surge precisamente para confrontar essa espiritualidade distorcida, que, mesmo reconhecendo a obra de Cristo, insiste na necessidade de obras adicionais para a aceitação divina.
A Distorção da Graça e a Identidade Comprometida
Atualmente, essa distorção se manifesta de diversas formas: a crença de que orar em um monte específico ou usar certas roupas aproxima ou afasta Deus. Paulo reage com vigor, pois a relativização da graça divina compromete a identidade cristã. O apóstolo conduz seus leitores ao centro do Evangelho, revelando que o propósito final da salvação não é apenas a libertação, mas a constituição de uma nova relação e identidade em Cristo Jesus, uma relação de aceitação que não se baseia em nossas obras, mas na obra de Deus.
A Plenitude do Tempo: A Ação Soberana de Deus
O texto começa com a declaração: “Mas quando chegou a plenitude do tempo”. Essa expressão denota um tempo determinado por Deus, não uma marcação humana. A encarnação do Filho não foi improvisada, mas um plano divino desde antes da fundação do mundo. A história não se desenvolve ao acaso; ela está submetida à soberania de Deus. A lei cumpriu sua função pedagógica, e as promessas feitas aos patriarcas, gerando expectativa, agora estavam cumpridas. Deus age no tempo certo, e a vinda de Jesus Cristo por nós ocorreu nesse momento pleno.
O Resgate e a Adoção como Filhos
O objetivo da encarnação é claro: resgatar os que estavam sob a lei. Paulo utiliza um verbo do vocabulário da libertação de escravos, indicando que Jesus veio comprar nossa liberdade. A humanidade, sob o peso da lei, era incapaz de produzir a justiça requerida por Deus. A lei expõe essa incapacidade. Somente Cristo pôde cumprir a lei perfeitamente, assumir a maldição e nos redimir. A redenção não é resultado de esforço religioso, mas de uma intervenção graciosa de Deus.
Com a redenção, não somos apenas salvos, mas entregues ao Pai como filhos adotados. O vocabulário da adoção, comum no Império Romano, representava uma mudança definitiva e irreversível de status, identidade e herança. Paulo usa essa imagem para comunicar que o Evangelho não apenas remove a condenação, mas estabelece um relacionamento que garante o futuro.
Após a adoção, recebemos o Espírito de Deus em nossos corações, que não apenas nos informa que somos filhos, mas produz uma consciência de filhos. Podemos chamar Deus de “Aba, Pai”, um testemunho interno de que a relação com Ele foi transformada. Nossa identidade cristã é real e precisa ser vivida em todos os ambientes da vida. Negar essa identidade é viver abaixo do que o Evangelho concede.
Vivendo à Altura da Herança: Não Mais Escravos, Mas Filhos
Paulo encerra afirmando: “você já não é mais escravo, porém filho. E sendo filho, também herdeiro por meio de Deus.” Essa mudança é objetiva. Deus nos retira de uma filiação antiga e nos traz para Sua família. Somos livres, com um novo nome, nova identidade e nova herança. Viver como filho significa confiar plenamente no caráter do Pai, descansar na obra de Cristo e caminhar no poder do Espírito.
A pergunta que permanece é como responderemos a essa verdade. Viver como filho não é um sentimento passageiro, mas uma jornada diária de fé, confiança e obediência, fundamentada na obra de Jesus Cristo. A soberania de Deus sobre o tempo e a história garante que, mesmo nos momentos difíceis, Ele está no controle. Que possamos, pela fé, assumir a condição de filhos amados de Deus, vivendo à altura da herança recebida.
Artigo baseado no sermão ministrado pelo Rev. Joel Theodoro, assista ao video abaixo.
